Vertentes da Crítica

28 de março de 2012

TEXTOS CRÍTICOS: As Cores Avessas de Frida Kahlo.

Arquivado em: Crítica — vertentesdacritica @ 17:03

Fotoshoot de As Cores Avessas de Frida - publicidade

A PRENHÊS PERMANENTE NAS CORES AVESSAS DE FRIDA

O espectador tem a sensação de estar no íntimo de Frida Kahlo ao provar o sabor, sentir os cheiros e ver as cores que fizeram parte da memória da artista. Não é apenas para estarmos passivos enquanto espectadores; o público participa e se torna parte da encenação. Os atores trazem a artista e sua história em seus corpos; a maquiagem e a pintura sugerem um encontro com os acontecimentos trágicos que formaram a personalidade de Frida, pois seus acidentes, problemas conjugais, decepções por não conseguir gerar um filho, foram marcas permanentes em sua trajetória. A sonoplastia sugere calma e mistério em meio ao caos de acontecimentos; os sons se encaixam nas ações e, ainda, as músicas que são cantadas pelos atores são de autoria própria, o que enriquece o espetáculo e confere originalidade. Porém, até que ponto o ator precisa ser um exímio cantor? Em específico na apresentação Frida, onde algumas cenas se formam a partir das canções, é necessário que haja uma perfeição vocal?  No entanto, o esforço do grupo é evidente e inquestionável.

Ao envolver o público em meio a um clima intimista e ritualístico, o espetáculo “As cores avessas de Frida Kahlo”, produzido pelos discentes do Projeto de Extensão Cores – UFRN, apresenta um conteúdo cênico biográfico sobre a artista plástica mexicana Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón (1907-1954). As situações mostradas neste espetáculo garantem um encontro com os dramas e angústias vivenciados por Frida durante seus 47 anos de vida, pois as cenas expressam um caráter alegórico e não-linear que induz o espectador ora aos pensamentos de infância da artista, ora aos desejos e dilemas de sua vida adulta.

Não se pode deixar de ressaltar como a gravidez da atriz e diretora Lina Bel Sena deu vida a uma Frida nunca vista antes; era o desejo de Frida sobressaindo na cena, como se fosse uma pintura. Em sua história, um grave acidente comprometeu seu útero e a impossibilitou de engravidar, e isso a deixou frustrada, enquanto mulher e esposa. Esse fragmento do espetáculo é uma verdadeira ida ao inconsciente de Frida.

O surrealismo, negado por Frida Kahlo – que declarava “Pensavam que eu era uma surrealista, mas eu não era. Nunca pintei sonhos. Pintava a minha própria realidade”, foi abarcado pelo grupo no espetáculo, em sua estética cênica. O grupo Cores em entrevista ao Vertentes da Crítica disse ter se fundamentado inicialmente em Antonin Artaud para construir a estética do espetáculo, contudo afirma ainda que pretende continuar os estudos desse teatrólogo nos próximos espetáculos. Mas em termos biográficos, as obras de Frida Kahlo são um dos materiais utilizados para a construção cênica. De acordo com as palavras da diretora do espetáculo, “a obra é a vida de Frida”.

O grupo Cores que apresenta essa pesquisa cênica desde 2009 acumula ao todo mais de 20 apresentações em diferentes lugares, dentre essas viagens está incluída a ida ao Festival Escena Mazatlán no México (2011), o qual rendeu, além de tudo, experiências culturais e sociais. Apesar do longo tempo “em cartaz”, o espetáculo Frida se encontra em contínuo estado de gestação, ou seja, esperamos sempre pela vinda de algo novo, mas não sabemos o quê e quando virá.  O espetáculo desde sua primeira estreia sofreu inúmeras metamorfoses, e isso nada mais é que a confirmação de um estado permanente de prenhês, e da nossa parte um estado permanente de espera.

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As cores avessas de Frida Kahlo

A peça é inspirada na vida de Frida Kahlo e aborda alguns momentos importantes da vida dela como, por exemplo, sua pintura, seu relacionamento com Diego Rivera, aborto, sexo e bebida.

A dramaturgia não é linear, mas consiste em decoupagens com trechos narrativos, onde cada cena representa um retrato, um extrato ou conflito da vida de Frida. Dentro do conjunto das cenas, cada uma tem sua autopoiesis, enquadradas no mesmo contexto. Há uma valorização do metatexto, já que a dramaturgia não tem uma narrativa linear e lógica. O conjunto dos signos cria uma poética própria e dão vida às alegrias e sofrimentos de Frida.

Através do envolvimento físico do público e as quebras de ritmo e contrapontos como, por exemplo, a beleza de uma imagem e a dor sentido por Frida, uma música cômica e a solidão de Frida cria-se uma atmosfera e um impacto com tensões multisensoriais. A encenação tem uma estética própria, baseado também na sinestesia. Há cheiro de cachaça e cigarro, come-se melancia e tem-se contato físico com os atores que se envolvem com o público.

Resumindo, para quem está disposto a se deixar levar pela grande variedade de sensações terá um espetáculo inspirador.

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#VERTENTES

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